(baseado no texto “Ouvir Vozes” de Ferreira Gullar)
“… essa pode ser a razão por que, não apenas a gente simples acreditava no que diziam os oráculos, mas também um filósofo como Heráclito de Éfeso” - F. Gullar.
“Ouvir vozes” está presente em todas as culturas: gente “normal”, pessoas comuns, celebridades, poetas, artistas, religiosos, músicos, loucos, pirados…
A verdade é que, vez ou outra, alguém diz que foi “invadido” por pensamentos, ou que sentiu “alguém” dizer “algo”, ou que foi tocado por uma sublime inspiração…
E que atire o primeiro HALDOL quem nunca passou por experiencia semelhante…
Algumas pessoas, porém, são bem vistas por essas “habilidades” (poetas, músicos, artistas, religiosos)… outros – nem tanto.
Qual a diferença, portanto, entre o poeta e o louco? (Sim, porque o autor do texto também confessa ouvir vozes). E como isso se relaciona com a Neurose e a Psicose?
Nas palavras de Freud (Neurose e Psicose, 1924)
“…as neuroses e as psicoses se originam nos conflitos do ego com as suas diversas instâncias governantes… elas refletem um fracasso ao funcionamento do ego, que se vê em dificuldades para reconciliar todas as várias exigências feitas a ele”.
A semelhança entre o “louco” e o escritor é que ambos encontram-se frustrados com a realidade em que vivem. Os dois são possuidores de uma instância psíquica chamada id e, portanto, desejam mais do que a vida pode dar.
Freud, explicando a etiologia da psicose e da neurose, diz que a causa comum entre as duas patologias é a frustração que provém da não-realização de desejos de infância que nunca são vencidos. Dentro dessa visão, pode-se afirmar que a neurose e a psicose são expressões da rebelião por parte desse id contra todas as restrições que o mundo externo oferece. A diferença entre a neurose e a psicose encontra-se na maneira como o Ego vai lidar com essas frustrações: pela sublimação ou pela alucinação…
Aplicando o conceito ao caso proposto, podemos dizer que, embora semelhantes na frustração, o poeta (neurótico) difere do louco (psicótico) pela maneira como este lida com essa frustração.
O poeta – como qualquer pessoa tida como “normal” – difere do louco porque, ao se deparar com a realidade desagradável, procura pelas vozes no seu interior que são capazes de transformar fel em mel. E, na busca por sentido, traz novos significados, usando palavras e poemas, que podem, muitas vezes, não serem compreendidos por todos – mas se expressam de forma artística…
Esse mundo de fantasia (que permite ao poeta imaginar uma realidade alternativa sem enlouquecer) é – conforme Freud – uma espécie de “reserva” acessível ao Ego que adapta as coisas desagradáveis aos desejos do indivíduo de uma maneira socialmente aceita. A isso damos o nome de Sublimação.
De maneira diferente, o ego do louco entra em conflito com o mundo exterior e, por não ter estrutura suficientemente boa, dá a luz à alucinação, porque a frustração é intolerável. Ele passa a construir um mundo novo de acordo com seus impulsos e desejos, desligando-se da realidade.
Em outras palavras, seu Ego fragilizado não possui condições de reconciliar-se com o mundo real e angustia-se a ponto de criar uma nova realidade para si. O desligamento que ele faz da realidade é o que dá, ironicamente, condições ao ego de continuar existindo. Por isso o alfaiate do texto de Gullar permanece em surto por 20 anos. E, nesse surto, Aniceto parece conviver com dois mundos. Do lado de fora, consegue interagir com o real: fala com pessoas reais, entra em contato com situações cotidianas… Mas Aniceto não consegue distinguir fantasia de realidade.
Nesse viver (que mais se parece com um sonho interminável), o psicótico transita e interage com seres reais e imaginários.
- Carlos Roberto A. de Castro
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Muito bom!!!